Hoje, eu, na Audiência Nacional. Solidariedade com os independentistas galegos julgados em Madrid

25 junio, 2013. 19:00

galizaNa minha mesa tenho umha tese de doutoramento de 2007, Terra a Nossa! Discurso de identidade agrária na Galiza “Moderna” (18875-1936), o seu autor é Antom Santos Peres, consta-me que este estudo dirigido polo professor Lourenço Fernandes Preto levou a melhor qualificaçom o que permitiu ao investigador obter o título de doutor. Passárom alguns anos e o Antom que dera aulas na Universidade com entusiasmo nada quijo fazer para permanecer no mundo acadêmico, enfrentava-se à vida com aulas particulares em Lugo, onde morava com companheira dele, Maria Osório, e correndo, porque o Antom participou sempre em muitas corridas populares.

Hoje é domingo, estou na minha casa em Tui, mas poderia estar na aldeia de Bustelo e no quarto de Antom na casa da família, como adoito fazer muitos fins de semana, desde já há anos. O Antom que conhecim de cativo, um neno muito observador e inteligente, cresce e arroma a sua vida, visita a (visitava) a casa de Bustelo de vez em quando, o que me permite, num pacto nom escrito, gozar do seu espaço e da sua biblioteca, umha boa coleçom de livros desde a literatura juvenil à literatura clássica de todos os tempos, muito ensaio, história, poesia; nesta biblioteca sempre dou com livros que me engancham e nom preciso levar nengum da minha casa, é um jeito de dialogarmos através das páginas polas que ele também andou. E já se sabe, as pessoas que lem som (somos) perigosas, e em Luou por toda esta casa lê-se muito.

Agradecida estou à família, à que quero como própria, pola sua hospitalidade, pola amizade, agradecida estou ao Antom por estes diálogos que fôrom medrando na clandestinidade do quarto dele, nas páginas dessas obras, nesse silêncio e nessa ausência, agradecida estou por esses chinelos que uso sempre e que me ajudam a manter os pés na terra. Desde o quarto de Antom, desde a leitura da sua tese, na minha casa em Tui, voltei a traçar na minha cabeça o mapa do território do meu país, do seu país, o mapa construído também com tirania e seguranças dessa paisagem que ele tam bem me explica na sua escrita, desaparecimento e aparecimento de um mundo agrário, das lindes entre o trabalho e o lazer, umha paisagem pola que hoje caminha, tem razom, e adorei o termo, umha “sociedade líquida”. Mas agora o Antom nom visita a casa, nom pode visitá-la, está preso, já nom partilhamos esse espaço desde há mais de um ano e seis meses. O meu amigo, o filho e o irmao dos meus amigos está preso. Prisom preventiva de um estado de direito que aplica a lei antiterrorista, essa da que sabe tanto o juiz Garzón, de um estado da Europa em que umha parte da cidadania olha para outro lado, mas nom toda.

Antom Santos, Maria Ossório, Eduardo Vigo e Roberto Rodrigues enfrontam-se a um julgamento que começará amanhá por um suposto delito de pertença a umha organizaçom terrorista. Nunca recêberom tratamento de suposta inocência, isso nom existe na lei antiterrorista, sofrem o afastamento da famílias, do seu país, sim, do país deles. Eles, ela, como Antom tenhen família, amizades, seres queridos com que partilhar os seus espaços; eles, ela som as cabeças visíveis de um julgamento à liberdade, de um julgamento ao nosso direito livre de querermos ter um país que se chame Galiza.

Velha estratégia inventar um inimigo para coartar as liberdades, para vigiar e controlar as liberdades, para as negar. Um estado que tem todo da sua mao, o politicamente correto e a opiniom, a imprensa e a lei antiterrorista, num momento em que com a desculpa de umha crise (da que nunca se nomeam os culpáveis, esta culpa nom tem rosto) assistimos à perda de direitos fundamentais no mundo do trabalho, na saúde e na educaçom que muitos anos demorárom para serem conseguir. Depois dos “recortes” as notícias nos meios de comunicaçom “oficiais” poderám deixar de falar um dia da crise simplesmente porque esse fantasma que continua a percorrer a Europa (e o mundo) materializará-se firme e triunfante em cada umha das nossas vidas cada dia mais escrava. Esta imprensa hoje tam amante dos inquéritos nom tivo a ocorrência de perguntar ao povo galego se realmente acredita que existe umha organizaçom terrorista na Galiza. Eu acho que nom. Havia que inventar culpáveis, pôr-lhe rosto, e fazer soar a velha ladainha que acompanha os sistemas de repressom, essa de “algo fariam”, enquanto se retorce o bico, se olha para o outro lado... O próximo passo: erguer o dedo acussador. Frente à injustiça está quem fai tremer o mundo, é quando o mundo treme cando se dam passos para a frente, quando surgem as revoluçons coletivas, quando se questiona o poder que nos aguilhoa. Hoje, já, 24 e amanhá, 25 de junho, Antom, María, Eduardo e Roberto, vam ser xulgados na “Audiencia Nacional”, mas essa cidadania, que questiona o poder e que o fai tremer, sabe que também ela é a julgada. Con isto nom contava a Audiência Nacional, com um número tam alto de acussados e acussadas!

Sei que os familiares de Antom, de María, de Eduardo e de Roberto tiveron que facer moitos números en quilómetros, en horas, en cartos.... moitos números, para se desprazaren aos cárceres onde os teñen, fóra e lonxe da casa. Sei que non hai adxectivos que acompañen á rabia, á impotencia, aos nervios vividos polos días que estiveron incomunicados cando botaba a andar a roda da represión coas súas formas máis sutís: libros sen dedicatorias, correo controlado, paquetes que non se poden entregar por non ser o día dos paquetes, aínda que percorras quilómetros, rexistros... Abonda con dicir que as familias das presas sempre serán sospeitosas (en moitos casos culpábeis) fóra e dentro do cárcere e non precisaremos falar dos números que cómpre facer nos traballos para poder acudir e chegar a tempo aos horarios das visitas... Desde que Antóm, María, Eduardo e Roberto están no cárcere para moitas persoas os domingos xa son outra cousa. Para moitas persoas os cortes tamén tenhem presenza nos cárceres, na comida, nas noites frías.

Como amiga de Antom Santos, da família dele, agradeço todos esses apoios recebidos, sobretodo a essas pessoas que oferecem a sua casa em Aranjuez, outra casa com muitos livros, que se converte num lugar de repouso antes ou depois de viver a experiência terrível de deixar um filho ou um irmao na tortura de umha soidade imposta, em prisom preventiva. O meu agradecimento é extensivo a todas as pessoas que mantenhem vivo o seu apoio e a sua solidariedade com Teto, Eduardo, Antóm e Maria.

Criminalizado o independentismo galego, é julgado hoje 24 de junho na Audiencia Nacional. Eu também serei julgada, durmo no quarto de Antom Santos, leio os livros da biblioteca dele, uso os chinelos dele, levo umha camiseta que me deu com a imagem da Bela Outeiro de umha corrida de Valga, amo a família dele, amo-o a ele e sou independentista. Tirárom-lhe a liberdade, nom o amor, nem as forças para correr num espaço mínimo, onde fai quilómetros e gasta as solas dos sapatos, ele que continua a ser, inteligente e observador.

Marga do Val | Diário Liberdade

[Nota: artículo publicado en su lengua original, galego]

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